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A dependência de drogas como fenômeno complexo e transdisciplinar 
A dependência de drogas é um fenômeno complexo e pluri-determinado, sendo diversas as disciplinas do conhecimento científico necessárias a sua compreensão, e conseqüentemente, são diversas as áreas profissionais envolvidas na abordagem desta clientela e no tratamento desta doença. O fato de considerarmos a dependência de drogas uma questão de saúde, isto não significa que se trata apenas de um problema com causas físicas, orgânicas. A dimensão psíquica ou emocional, assim como os fatores de contexto incluindo fatores sociais, culturais, familiares são igualmente importantes. A perspectiva transdisciplinar refere-se a uma leitura de todas estas dimensões que precisamos considerar no conhecimento e na abordagem da dependência de substâncias psicotrópicas, buscando definir a diversidade de situações sem perder de vista a globalidade do fenômeno e a singularidade de suas manifestações em cada sujeito que se apresenta (ou é apresentado) como dependente. 

 

Por considerarmos que o tratamento das dependências de drogas exige uma abordagem integrada das diversas dimensões implicadas, é consenso na literatura que o mesmo seja abordado num enfoque interdisciplinar que vai além da abordagem multidisciplinar. 

 

Entendemos que só poderemos evoluir neste trabalho se avançarmos no conhecimento do fenômeno das dependências em sua amplitude e complexidade. Neste sentido, vimos introduzindo o conceito de transdisciplinaridade que surge da contribuição da teoria do pensamento complexo de Edgar MORIN (1991), um dos pensadores mais importantes da atualidade. Definimos, assim, o fenômeno da dependência de drogas como um fenômeno complexo e transdisciplinar. 

 

Para saber mais

 

Abordagem Multidisciplinar: refere-se ao trabalho e estudo de profissionais de diversas áreas do conhecimento ou especialidades, sobre um determinado tema ou uma determinada área de atuação. Não implica em integração destes profissionais para o objetivo de entendimento mais amplo do fenômeno.

 

Abordagem Interdisciplinar: refere-se ao trabalho e estudo de profissionais de diversas áreas do conhecimento ou especialidades sobre um determinado tema ou área de atuação, implicando necessariamente na integração dos mesmos para uma compreensão mais ampla do assunto.

 

Abordagem Transdisciplinar: refere-se ao trabalho e estudo da natureza ou qualidade das relações existentes entre as diversas áreas do conhecimento ou especialidades implicadas no fenômeno. Propõe que os profissionais trabalhem integrados para não perderem a visão global do fenômeno e da pessoa em atendimento enquanto sujeito ativo e participante do processo e inserido num contexto familiar e sócio-cultural. Implica numa leitura inovadora sobre a questão que, ao invés de se preocupar apenas com as especialidades (as partes), busca resgatar a globalidade (o todo) do fenômeno, priorizando o estudo de como as diferentes dimensões se articulam gerando uma diversidade de situações. Estas situações são resgatadas em sua singularidade sem, no entanto, perder de vista sua relação com a complexidade e a globalidade do fenômeno.   

 

1. O QUE É ABORDAGEM INTERDISCIPLINAR?
É uma leitura de todas as dimensões que precisamos considerar no conhecimento e na abordagem da dependência de substâncias psicoativas. As diferentes dimensões do problema não se colocam apenas como um somatório de fatores, mas se articulam em diferentes formas e combinações, configurando a diversidade de situações e a singularidade de cada caso. 

 

A abordagem interdisciplinar identifica como as diferentes causas estão relacionadas umas com as outras, configurando a especificidade de cada situação ou a individualidade de cada sujeito dependente. A abordagem interdisciplinar exige pois, que sejamos capazes de realizar uma leitura ampla e integrada, incluindo os vários ângulos desta problemática e, ainda, compreender como tantos fatores em jogo se relacionam entre si. Um trabalho desta natureza só pode ser feito por uma equipe formada por profissionais de diferentes áreas, os quais a partir de um trabalho em conjunto, formarão a equipe interdisciplinar. 

 

Importante

 

Um aspecto importante ao se caracterizar a dependência de drogas como uma problemática que exige abordagem interdisciplinar refere-se ao fato de que os diversos fatores em jogo não podem ser vistos de uma forma linear e tampouco de forma estática. Ao contrário, são dinâmicos e circulares, exigindo da equipe uma leitura sistêmica.

 

 

2. O TRATAMENTO DE DEPENDENTES DE SUBSTÂNCIAS COMO PROCESSO DINÂMICO E INTERDISCIPLINAR 
Tendo em vista a natureza complexa e interdisciplinar do fenômeno da dependência de substâncias psicotrópicas, o respectivo tratamento constitui um processo dinâmico caracterizado pelas interfaces entre as diversas áreas implicadas e que exige pois, uma constante articulação e integração entre os profissionais.  

 

Destacamos aqui uma particularidade inerente ao tratamento de dependentes de drogas que constitui um desafio importante para toda a equipe: trata-se da ausência inicial de demanda de tratamento por parte do próprio usuário que se faz, na maior parte das vezes, representar por uma terceira pessoa, familiar ou amigo ou ainda, uma instituição (escola, justiça, etc.).

 

 Esta característica que se configura no decorrer do tratamento como uma dificuldade de adesão ao mesmo, vem reforçar a necessidade de se trabalhar em equipe interdisciplinar, a fim de cada paciente possa encontrar na equipe diversas opções de pessoas para estabelecer um vínculo inicial do qual dependerá a superação de suas resistências ao tratamento. Cabe destacar a importância do estabelecimento de um vínculo com um dos integrantes da equipe para que o processo terapêutico se inicie, e possa deslanchar. 

 

O tratamento de dependentes de drogas é um processo dinâmico e complexo que se compõe de três etapas fundamentais. Em cada uma delas a equipe se coloca com uma função específica a ser considerada, como veremos a seguir:

 

2.1 FASE DE ACOLHIMENTO OU DE TRATAMENTO DA DEMANDA: a equipe e a rede de apoio descobrem o potencial das redes sociais e desenvolvem no cliente a motivação para mudar 
Coloca-se aqui toda a importância da primeira etapa do tratamento de dependentes de drogas que se constitui no que denominamos de acolhimento ou abordagem do paciente dependente ou fase de inserção ao tratamento.

 

O que é esta fase? 
Esta fase inicial é de fundamental importância, cabendo à equipe realizar uma intervenção a partir de quem toma a iniciativa de procurar a ajuda profissional, procurando-se, através deste “porta-voz”, mobilizar a pessoa dependente e construir uma rede de apoio ao seu tratamento. Faz-se necessário nesta fase, uma boa habilidade de acolher e estabelecer vínculos, compartilhando entre toda a equipe a construção de estratégias para mobilizar o paciente a comparecer e aceitar a ajuda dos profissionais e de seus familiares. É precioso o momento inicial no qual alguém busca ajuda para a pessoa dependente que, em geral, não está expressando desejo de se tratar. Aprendemos com nossa experiência de atendimento a esta clientela que o fato de não expressar desejo em mudar não quer dizer que a pessoa dependente não esteja sofrendo ou não queira ser ajudada, ou ainda, que não queira mudar nada em sua vida, e em especial, em sua relação com o consumo de drogas. Cada vez mais os familiares e as pessoas em geral se mostram surpresas com a forma descarada e até provocativa de consumir drogas, em especial pelos jovens que já não se escondem dos adultos e muitas vezes se expõe aos policiais, aos pais, aos professores ou a outras autoridades. Numa visão sistêmica, entendemos que o próprio comportamento de se drogar pode estar representando uma comunicação, cujo significado poderá ser decodificado em cada contexto específico. Num trabalho conjunto que se inicia sempre através destes terceiros que expressam o pedido, a equipe deve identificar a melhor forma de compreender esta demanda que se expressa através do sintoma de consumir drogas. Partindo-se do pressuposto de que a demanda é um desejo que pode evoluir e que desenvolver motivação para mudanças é tarefa primordial do terapeuta, a equipe precisa investir de forma integrada e complementar numa acolhida especial àqueles que a procuram para, através destes, mobilizar o cliente. A implicação de todos numa ação integrada reunindo as pessoas sensíveis, mobilizadas e dispostas a ajudar, constitui a tarefa primordial da equipe neste primeiro momento do tratamento. Em estudos anteriores, consideramos exatamente que este trabalho inicial buscando desenvolver a demanda de atendimento pela pessoa dependente constitui a especificidade do tratamento de dependentes químicos – é o que nos referimos como sendo o “tratamento da demanda”. Neste processo revelam-se elementos importantes para o diagnóstico e avaliação tanto do paciente como da família. Nesta perspectiva, a fase inicial do tratamento destina-se ao diagnóstico do potencial da rede de apoio e dos recursos existentes no contexto, sendo esta seguida do psicodiagnóstico do paciente e indicação terapêutica propriamente dita. 

 

2.2. O TRATAMENTO PROPRIAMENTE DITO 
A evolução dos modelos de tratamento para dependentes de drogas do regime de internação para os regimes predominantemente ambulatoriais e de abordagem comunitária está consolidada através da nova política de saúde mental (portaria 336/GM, Ministério da Saúde, 19/02/02) que dispõe sobre a proteção e os direitos das pessoas portadoras de transtornos mentais e o modelo assistencial em saúde mental. Esta nova portaria atualiza as normas constantes na portaria anterior (MS/SAS nº. 224, de 29/01/1992) estabelecendo os Centros de Atenção Psicossocial como unidades de serviço tanto no atendimento das pessoas com transtornos mentais como de pessoas com transtornos decorrentes do uso prejudicial e dependência de substâncias psicoativas. 

 

Esta nova política de assistência na área da saúde mental define o contexto do atendimento aos dependentes de drogas na rede pública de saúde, através dos CAPS ad II – centros de atenção psicossocial para atendimento de pacientes com transtornos decorrentes do uso de substâncias psicoativas. As características estabelecidas para os CAPS ad II deixam muito claro que a natureza do atendimento é predominantemente ambulatorial de atenção diária, devendo-se o gestor local responsabilizar-se pela organização da demanda e da rede de instituições de atenção a usuários de álcool e drogas, no âmbito de seu território. 

 

A assistência prestada ao paciente no CAPS ad II inclui as seguintes atividades:

1. atendimento individual (medicamentoso, psicoterápico, de orientação, entre outros);

2. atendimento em grupos (psicoterapia, grupo operativo, atividade de suporte social, entre outras);

3. atendimento em oficinas terapêuticas, executadas por profissional de nível superior ou de nível médio;

4. visitas e atendimentos domiciliares;

5. atendimento à família;

6. atividades comunitárias, enfocando a integração do dependente químico na comunidade e sua inserção familiar e social;

7. os pacientes assistidos em um turno (04 horas) receberão uma refeição diária; os assistidos em dois turnos (08 horas) receberão duas refeições diárias

8. atendimento de desintoxicação.     

 

Quanto aos recursos humanos, a portaria 336 GM estabelece que a equipe técnica mínima para atuação no CAPS ad II para atendimento de 25 pacientes por turno, tendo como limite 45 pacientes/dia, será composta por: 

 

  Equipe Técnica (mínima)

  • 01 médico psiquiatra;

  • 01 enfermeiro com formação em saúde mental;

  • 01 médico clínico, responsável pela triagem, avaliação e acompanhamento das intercorrências clínicas;

  • 04 profissionais de nível superior entre as seguintes categorias profissionais: psicólogo, assistente social, enfermeiro, terapeuta ocupacional, pedagogo ou outro profissional necessário ao projeto terapêutico;

  • 06 profissionais de nível médio: técnico e/ou auxiliar de enfermagem, técnico administrativo, técnico educacional e artesão.

 

Como podemos constatar, a nova política implica em uma nova proposta técnica que, por sua vez, exige uma considerável mudança no que diz respeito à formação da equipe interdisciplinar. Na medida em que os clientes permanecem preferencialmente em seus próprios espaços de convivência familiar e social, os profissionais precisam estar dispostos a conhecerem estes ambientes para poder avaliar os aspectos de favorecimento ou de entraves ao tratamento que urgem intervenção.           

 

Cabe considerar  que nem sempre os pacientes apresentam uma demanda para o tratamento psicoterápico, mas se identificam com outras atividades de cunho terapêutico, envolvendo outras atividades tais como o cuidado com o corpo, por exemplo, ou então com sua espiritualidade. É muito variado o espectro de possibilidades de alternativas terapêuticas que podem auxiliar no tratamento de um dependente de drogas. 

 

Neste sentido, cada equipe na condição ideal, deveria poder contar com profissionais de diversas áreas para permitir aos clientes uma diversidade de opções de ajuda condizente com a diversidade de demandas colocadas por esta clientela. A partir destas diretrizes e quadro mínimo de pessoal especializado, cabe a cada equipe construir seu projeto terapêutico de acordo com suas competências e recursos na rede de saúde e na comunidade. 

 

A implantação desta política de atendimento nos CAPS ad II está garantida a partir de uma portaria recente do Ministério da Saúde (nº. 816/GM, de 30/04/2002, publicada no DOU nº. 84, pág 29/30, secção 1, em 30/05/2002) que lança o programa nacional de Atenção Comunitária integrada a Usuários de Álcool e outras Drogas, a ser desenvolvido de forma articulada pelo Ministério da saúde e pelas Secretarias de Saúde dos estados, Distrito Federal e municípios. Este programa inclui tanto o financiamento da assistência como a capacitação das equipes interdisciplinares em nível de especialização e de atualização, em parceria com as Universidades.

 

2.3. FASE FINAL OU DE REINSERÇÃO SOCIAL: O RESGATE DO CONVÍVIO FAMILIAR E COMUNITÁRIO E DA PARTICIPAÇÃO CIDADÃ ATRAVÉS DO TRABALHO 
Na fase final do tratamento há um processo de reinserção social do cliente que exige um trabalho igualmente interdisciplinar, na medida em que são trabalhados aspectos relativos ao trabalho, à escolaridade e formação profissional, ao relacionamento social e familiar, ao lazer (sem o abuso de drogas). Cada equipe deverá planejar suas ações para acompanhar seus clientes nesta fase final e de tamanha importância, visando prevenir recaídas e garantir a melhoria da qualidade de vida, que é o objetivo maior do tratamento.